Debate ressalta questões de gênero no meio rural | Agricultura | Notícias | Novo Rural
PUBLICIDADE
Debate ressalta questões de gênero no meio rural
Evento virtual teve como objetivo de debater os desafios impostos à classe em questões como a geração de renda, comportamento e integração social
Quarta, 28 de Julho de 2021
Divulgação

O tema “Mulheres rurais e a visão de mundo” foi o norteador do debate virtual transmitido por meio dos canais da Novo Rural na terça-feira, 27 de julho. Deliberando sobre as mulheres rurais e os desafios impostos à classe em questões como a geração de renda, comportamento e integração social, o momento foi promovido pela Emater/RS-Ascar, vinculada à Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) – através do Escritório Regional de Frederico Westphalen – e da Novo Rural. A ação também teve apoio da Sicredi Alto Uruguai, Sicredi Raízes e Sicredi Região da Produção.

A conversa contou com a participação da secretária de Estado da Agricultura do RS, Silvana Covatti, da diretora técnica da Emater/RS em exercício, Luana Machado, do gerente regional de Frederico Westphalen, Luciano Schwerz, do professor de Filosofia e pesquisador Claudionei Vicente Cassol, da URI-FW, e das agricultoras Andreia Trombetta (Caiçara/RS) e Kátia Fritzen Seibel (Nova Boa Vista/RS). 

Cassol contextualizou a temática afirmando que a colocação efetiva da mulher como protagonista natural na sociedade passa por uma mudança cultural. Para ele, atitudes diárias, como a inclusão da mulher como personagem principal na linguagem através do uso correto dos gêneros linguísticos, pode ser um avanço importante.

– Temos que usar termos como filho e filha, marido e esposa porque são gêneros distintos que estão ocupando esses espaços. Temos uma grande resistência neste quesito e esquecemos que os dados atuais apontam, tanto no Brasil como no Rio Grande do Sul, que a mulher é majoritária dentro da sociedade – complementa. 

O professor destaca ainda que masculinização da cultura se deve a inúmeras questões e a um período extenso da história construído pela mitologia, filosofia, teologia e pela ciência moderna. 

– Podemos abrir qualquer livro clássico e veremos que raramente as mulheres são referenciadas. E a mulher não participava da sociedade? Temos que assimilar que até a metade do século passado quem escrevia a história eram os homens e, por isso, houve essa masculinização da linguagem – explica o professor, que também atua na rede pública estadual de Cerro Grande.

Para Cassol, esse estabelecimento cultural precisa ser rompido tendo em vista que “a cultura é dinâmica e esse dinamismo exige novas posturas e uma nova racionalidade”. Quando se fala nas mulheres rurais, é fundamental que o trabalho delas também seja visto como gerador de renda e importante para o contexto da propriedade, de modo que elas tenham também a possibilidade de rotinas de tarefas mais equilibradas, momentos de descanso e de lazer, assim por diante.

A visão das agricultoras

Andreia Trombetta, 27 anos, mãe do Michel, de 4 anos, e agricultora no interior de Caiçara, afirma que as mulheres já conquistaram algum espaço, mas há muito o que evoluir. Na propriedade, as atividades são dividas igualmente com o marido Jonas. 

– Dividimos nossas funções por aptidão, mas quando um de nós precisa sair, o outro dá seguimento na propriedade. Isso é muito bom porque eu tenho a liberdade de estudar, de ir até a universidade – relata a agricultora, que também é acadêmica do curso de Tecnologia em Agropecuária da URI/FW. 

Apesar da situação positiva dentro da propriedade, Andreia compreende que de modo geral a situação é diferente. Contudo, segundo ela, “a geração mais jovem está aí para mudar esse cenário, para mostrar onde é lugar das mulheres, o que quer e o que não quer para si”. 

Para as demais agricultoras, Andreia diz que é preciso que cada uma encontre seu lugar no mundo e não permitam ser subjugadas. 

– Não deixem que alguém diga onde é o lugar de vocês, que alguém exclua vocês da atividade. Saibam o valor de vocês, porque somos muito importantes para este contexto – ressalta.

A história de Katia Fritzen Seibel, 42 anos, de Nova Boa Vista, é tão inspiradora como a de Andreia. A agricultora conta que assumiu a propriedade junto com os demais familiares após o falecimento do pai Aldino.

– Fazem 21 anos que perdi meu pai e ele sempre dizia que tínhamos que dar valor e cultivar a terra – relembra. 

O começo não foi fácil. Katia conta que era visto com estranhamento na época uma mulher ir sozinha ao banco ou a uma cooperativa de produção para tratar de negócios e investimentos.

– Felizmente nós superamos isso. Com muita união em família, fomos à luta e vencemos. Hoje temos uma propriedade diversificada para administrar – celebra.

A agricultora sensibiliza outras colegas de profissão a não esperarem algo acontecer ou as dificuldades chegarem para dar espaço para a mulher na propriedade, quando o assunto é a co-gestão.  

– Todas somos capazes, só precisamos ir em busca dos nossos sonhos – salienta Katia.

O olhar técnico 

Para a diretora técnica da Emater/RS, Luana Machado, a presença feminina na gestão das propriedades vem aumentando. De acordo com ela, 49% do público atendido pela Emater são mulheres. Contudo, os trabalhos executados ainda são majoritariamente sociais, não integralmente do processo produtivo.

– Precisamos de uma mudança de concepção como um todo. Não falar apenas de mulher para mulher, precisamos envolver os homens nesse processo. A partir do momento em que conseguimos incluir os homens nessa mudança de postura é que vamos avançar. Do contrário, seremos nós falando para nós mesmas – enfatiza a diretora. 

O gerente regional de Frederico Westphalen, o agrônomo Luciano Schwerz, afirma que a extensão rural é uma ferramenta para integrar, já que é uma construção de conhecimentos e também contribui para uma mudança cultural.

– Estamos capacitando nossos extensionistas para que tenham uma abordagem do todo, com as questões de gêneros, fazendo com que a compreensão seja mais fácil e naturalmente haja a evolução – revela Schwerz. 

Por fim, para secretária de Agricultura, Silvana Covatti, a mudança de cultura é um processo lento. 

– É uma mudança lenta, mas passa pelas mulheres fortes e, também, por aquelas que ainda não descobriram sua força – complementa. 

 

 

Fonte: Samuel Agazzi | Novo Rural
MAIS FOTOS